Soneto a duas cores
Vergonha que me silencias,
és o silvo que me chicoteia
a poesia. Calças-me a meia
de chumbo, e tudo o que crias
é um tombo pesado, sem arte.
Tento andar mas não consigo -
o meu lombo está de castigo.
E nisto o meu coração se parte.
Oh, quando tudo o que eu tentava
era sonhar em alta voz...
Mas a vergonha profunda cava
em mim este abismo atroz.
Para o pintar de verde e rosa, o que eu não dava...
É que eram essas as cores com que sonhava.